domingo, dezembro 24, 2006

Fim.

Porque sim, porque preciso de ver novos futuros e novos amanhãs.
Porque isto deixou de me interessar faz mais de quinze dias.
Porque quero novas abordagens à escrita que já me cansava.
Porque quem me conhece, compreende estas coisas.

Até breve, como sempre.

quarta-feira, dezembro 20, 2006

Egoísmo.

Gostava de te estar a falar ao ouvido, sabes? e de te dar a escolher, como quem não quer a coisa:
- se te matar não me deixas, não?

sábado, dezembro 16, 2006

Observações VIII.

Ao ver aquela arma percebi que as desistências, mais do que uma cobardia ou um correcto sentido de oportunidade, são ausências que se aproximam da nossa fuga.

terça-feira, dezembro 12, 2006

Subir escadas de costas.

Olhava para a factura
-olhavas ou olhas?
Olho para a factura destes anos todos e calculo como tudo podia suceder de forma diferente.
Sei que te amei quase tudo o que consegui embora nunca o que considerasses suficiente e pois que isso é tido por deficit em linguagem comercial
-lá estás tu com a mania de mudares de assunto
Não é mudar de assunto, é dizer como sei dizer, sabes
Mas dizia, sei que te amei quase tudo o que consegui embora nunca o que considerasses suficiente, nem tu nem as ideias que tinhas para nós os fins de semana e os feriados aconchegados as noites com o corpo em pranto de querer mais os jantares com os teus e os meus pais os filhos que querias mas que
-mas que o quê
Mas que não foram.
Nesta espera em que lembro assim do nada filmes de capa e escada nem sei porquê, tiro os óculos, sacudo o pão que dou aos pássaros do casaco, olho para as árvores e cheiro o final a chegar.
Estou mais que tranquilo.
No lago, os cisnes passeiam brancura e eu danço sozinho ante crianças que apontam este espantalho a dedo e uma dor desconhecida que me faz desaparecer o sorriso.

segunda-feira, dezembro 11, 2006

Aquilo que conta.

Quando não nos importamos com as consequências, não nos importamos com nada
-veja lá que no meio daquilo tudo, ainda se lhe reconhecia o sorriso
Na sala embora não ousasse chamar de sala aquele antro com revistas e jornais e vinis e cálices de Porto e cinzeiros roubados em restaurantes e relógios parados à mesma hora e o sol que entrava pela janela derrubando os cortinados e deixando-se sentir com cheiro a mofo
-era um louco, mas não dos perigosos, lá tinha os seus gatos
No corredor, especialistas em saúde alheia combinavam como sair dali, ruas apertadas escadas a esgueirarem-se para pátios com ralos que cheiram mal, sardinheiras nas varandas, pescoços a alongarem-se de forma em girafa para espiarem, um transtorno para as viaturas a terem assim que inverter marcha e apanhar o desvio contornando a urgência que ainda apitava em cima do passeio mosquitos por cordas como se diz, a loja de esquina a espreitar, pelo menos quatro lá dentro sem comprar nada mas com justificação de ali se deixarem
-não me lembro, ele sofria de alguma coisa ou foi de repente
Nem uma nem outra, foi o medo o medo de já não se lembrar do nome dela E devem compreender a desgraça que me habita é uma coisa, mas olhar para os retratos e não me vir à lembrança nem à língua o nome isso não e então deixei-me morrer entre os gatos que me lamberam ainda um bom tempo e quando caí nem me magoei nem nada, talvez agora com mais sossego e neste escuro me consiga lembrar sei que sim.
Quando não nos importamos com as consequências, não nos importamos com nada
Isabel.
Sorri e quem me rodeava estranhou.

sexta-feira, dezembro 08, 2006

Anjos.

Cortada a fatia de queijo, afastei-me da cozinha e entrei na sala quente, lareira e brandy cabeça de tigre espantado no chão. Sentado e confortável sei que o mundo lá fora é violento para quem o olha suspeito. Devia neste sossego ter tempo e lucidez para proferir sentenças importantes relevantes e decisórias. Juízos sobre a humanidade sobre a morte a vida a solidão. Coisas assim. No fim de contas, limito-me a procurar uma falha no copo. Tão simples.

terça-feira, dezembro 05, 2006

À dúzia é mais barato.

Vendidos os sonhos e a chuva chegada depois da seca, retiro-me como sempre. Nas aldeias mais próximas entre medos e crucifixos nos tectos, há sempre espaço para o desconhecido entrar e violar entre te arrenegos o esconjuro dos débitos vencidos em almas perdidas. Não que o demo esteja em espreita alerta e atenta. Mas antes porque vender coragem e fé e tinta invisível contra a gripe sai muito mais barato do que enfrentarmos de pé o que nos abala.

domingo, dezembro 03, 2006

Sublime.

Digamos que foi curioso. Uma sensação, a bem dizer, como de surpresa repentina
-Há alguma surpresa que não seja repentina?
Este tipo é um idiota
Reescrevo e apago
Digamos que foi curioso. Uma sensação, a bem dizer, como de surpresa. Um ai suspirado num beco escuro, uma torneira que deixa de gotejar.
Quando me virei para o lado a modos de te abraçar já não estavas lá
-Eu estava tu é que não...
Tens razão de novo
Reescrevo e apago
Quando me virei para o lado a modos de te abraçar já não estava lá.
A morte não é definitiva, como vês, mas estorva bastante.
É isso.
Estorva.

quinta-feira, novembro 30, 2006

Não me apetece.

Nada nem o teu não que tomo sempre por seguro, mesmo depois de te deixares cair nos meus braços, pedindo que te preencha aquele hiato de beldade, poesia e desejo a que se chama alma.
Nada.

segunda-feira, novembro 27, 2006

Doce.

Nunca fui mulher de loucuras, deus me livre. Gostava de à noite esconder-me numa manta até aos pés e fingir-me ter filhos. Tratei do pai até há menos de dois meses e só lhe conheci um sorriso quando disse por piedade que o amava, enganando-lhe os olhos e a memória e a morte.
-Glória
mas assim a dizer baixinho, não fosse haver ouvidos em vez de quadros ou de náperons ou de terrinas de sopa com desenhos chineses
-Glória
mas o meu nome é Maria
- que saudades tenho tuas, Glória
o pai que tinha dificuldades em ter a língua quieta como nós, que a movimentava com velocidade parecia à procura do céu da boca, e eu com o casaco nos ombros, os óculos de coser, a casa quente, muito quente, lá fora um mundo que mete medo
- Glória, amo-te.
e quando o levaram, sem ombros só ossos e uma cabeça muita magra a dar a dar, olhei para o seu retrato e disse
- mãe, também tenho muitas saudades tuas.

domingo, novembro 26, 2006

Fomos.

Não há nada que nos segure mas resta o agradecimento que temos quando olhamos o tecto e sacudimos a poeira ao que dentro de nós já não tem conserto e damos graças a deus, enquanto recordamos um dos últimos carinhos de há muito tempo, quando como dois animais nos comíamos, traiçoeiros e sedentos, e sabíamos pôr a cama a fazer música e íamos ao frigorífico buscar comida e espreitar pela janela o ritmo sonolento da vizinhança,
mas agora sabemos que não há nada que nos segura mas resta o agradecimento que temos quando olhamos o tecto e.

sábado, novembro 25, 2006

Noite.

Antes de mais, devo dizer que adoro as tuas mentiras e o teu plano de fuga pela madrugada dentro e a maneira como te atreves em rodear as tuas pernas
- Quase um metro de perna, meu amor
em rodear as tuas pernas na minha cintura, e em contares as tuas extravagâncias ao meu ouvido, na justa medida pela qual te encolhes quando te recolho nos meus braços, e em transpiração que se condensa na alameda antes de tua casa, com o fecho da tuaa porta a desvendar braço e mão a saírem de túnica e um dedo a apontar
- Quero fazer-te feliz
E eu, que ando neste negócio de felicidades alugadas faz séculos, deixo-me arrastar e adormecer em ti.

domingo, novembro 19, 2006

Quando olhei para ti.

Após aquele mergulho
- é uma frase estúpida, não achas? Após aquele mergulho?
Após aquele megulho, ainda com a cabeça em papas e as mãos com vincos e chupões de anémonas e as pernas com dançarinos em chávenas de chá quente a lançarem malditas notas de culpa para quem conhece barbatanas e dicas de maré vaza, sabia estar perante a presença de um desapontamento que deixa cetim e papel na boca
- achas que já é tarde para apagar a luz?
Arrastei o meu corpo para depois da praia, onde o deitei ao teu lado, sossegado, ouvindo o teu respirar, diferente do meu, dois segundos atrasado, templo de lei maior o teu que rasteja para mim, eu a olhar o nosso amor, vida em barcos de junco e um quadro na parede, ao lusco fusco, menino com gato no colo, o teu rastear de lágrimas que quer ser descoberto sempre que assim, com olhos à espião e cigarro pendurado em lábios, te ofereço esconderijo por troca com piano e drama.

sexta-feira, novembro 17, 2006

Silêncio.

Não me apetecia ouvir metade do que querias dizer. Nestes momentos olha-se para os sinais de trânsito, para os rostos que passam amaldiçoando a chuva que se desejava com ardores de paixão há 2 meses, olha-se até para a cor das meias e conclui-se termos começado mal o dia. As chaves na ignição deviam voltar meia-hora atrás e permitir-me passar com o peso desta mágoa surda por cima dos olhos teus a fechar com espanto.

segunda-feira, novembro 13, 2006

Sono de deslumbramento.

Naquela tarde em que me perdi dentro de uma folha de papel com tua letra e teu cheiro a rosas e teus olhos e lágrimas nela postos, sei que a aventura valeu a pena, mesmo que as velas acendessem aos poucos a pira do vinho que bebi, e nela o meu sonho não restasse senão corda e banco de forca, e assim nada mais que a madrugada agarrada em meus braços, fotografia a preto e branco, corpo sem lastro, dança sem par, força sem coragem, e eu a dizer-te, meu amor quero desaguar em ti o homem que nos resta.

domingo, novembro 12, 2006

Observações VII.

Em filmes destes, sempre fiz de agente secreto que pedia um Dry Martini repetia o nome duas vezes e acendia o isqueiro com a mão esquerda. Lutava contra quem ameaçava a liberdade e fazia mal a donzelas que eu tragava à sombra e com champôo. Gostava de ostras e sabia vestir qualquer princesa que se sentava em tronos de verde alface. Larguei o meu Aston Martin e gatinhei até ao berço. Nós os heróis de massas temos que nos comportar e deitar cedo.
A tristeza que me consome.

As pegadas do que foste na areia, os vestidos usados e com flores por onde passo a minha mão, as tuas fotografias onde sorris, o vidro onde escrevi amo-te e tu escrevias os nossos nomes e que líamos em manhãs e noites de humidade lá fora, a caneta que roías na ponta, eu a descer as escadas nunca perdi tempo com tristezas nem com indiferenças nem com os livros que ainda têm as tuas marcas para me perguntares com calma e vagar se o realismo mágico latino-americano existe, o cigarro que eu fumo pendurado na nossa história, com os olhos a atiçar as ondas que sei e quero que devolvam os teus lábios e os teus braços e a noite sem língua nem cuidado mas que nos apontava o norte. Não me lembro de te perder, claro que não. A morte é regra geral uma perda súbita de memória e nada mais que isso. É uma carta que chega ao destino, mas que é lida por um analfabeto. Somos assim, desgraçadamente felizes. Mesmo com advérbios de modo a inundarem a escrita.

sexta-feira, novembro 10, 2006

Teias de aranha.

Encheste-me a garganta de navalhas afiadas como mandam as regras de uma paixão que parece pura e secreta e breve com a gargalhada a correr pelas veias sem temer o teu susto e o teu amanhã que foi aquele pôr do sol mergulhado na minha púbis e apascentado no céu do meu peito onde procuravas o meu teu estar de lua feita, noite escondida, além-mar, janela, varanda e fada com a face que sorri à desgraça que me corrói com voz rouca balanceando tremores e piratas e runs e amores.
Somos um jogo estúpido de palavras que se arrasta em templo alheio.
Somos o que somos, disseste-me.
Somos mais o que fomos e as dores que carregamos, corrigi-te.
Somos os dois, puseste os teus dedos na minha boca e calaste o meu verbo, enquanto me empurraste para a língua uma alquimia de amor que leiloavas há anos.

quinta-feira, novembro 09, 2006

Era mais prático.

Sempre lhe fizeram confusão aqueles que pensavam saber escrever sobre amor. Ou sobre sexo. Ou sobre doenças. Aliás, aqueles que diziam saber escrever davam-lhe cabo da paciência. Nada de muito grave, mas apenas uma notória falta de proactividade para a compreensão do acto isolado e nefando de se ser e querer ser escribalhão.
Isto das letras juntas não se conta nem se diz nem se faz nem se sabe.
É sacríficio e palavra ganha palavra gasta.
É não dar respeito às histórias que vemos morrer à nossa frente.
É imolar personagens e cheiros e sabores e datas e movimentos e algoritmos e o diabo a sete.
Há quem prefira estilizar a coisa, encadear maravilhazinhas e sílabas e diálogos catitas e versos em comandita ou sociedade por quotas.
Há aqueles que as preferem, às palavras, a cortar fatias de fiambre, grossas ou finas, conforme a crónica der mais alguidar ou mais faca.
Deitado é posto o amor, e a mágoa de não o ter, ou de o ter mas não ser aquele ou aquela o preferido e gasto pelos amadores do burgo.
Escrever?
Sim, mas com recato.
Com vergonha.
Com dor.
E acima de tudo, sem atropelar a história, que se deita sempre nos nossos braços a pedir para ser personagem principal.
E que se fodam as angústias e os tremeliques e os parágrafos encolhidos, bojudos e retorcidos.
Escrever é um combóio em despiste com almas dentro.

domingo, novembro 05, 2006

Carta para ti.

Amanhã compreendes o que nos escapou hoje. A esperança na humanidade é um pequeno-almoço com torradas e sumo de laranja. As estradas que nos fogem a mais de 120 são dias sem ódio nem som. Sabes bem que o clarão de um bico de gás não recomenda cigarros acessos. O canto de um coro de igreja ou uma bandeira de uma nação em azuis e laranjas. Não tenho mapas mas sei para onde vou. As coisas não sentem a importância que lhes damos. Os nossos cartões de crédito não são amados, nem os nossos automóveis nem as minhas jóias. Desaponto-me sempre que chove por saber que a noite ganha um cheiro que me apetece abraçar.

sexta-feira, novembro 03, 2006

Procura.

A habitual tortura dos meus pés que não se atinam, a mão em corrimão onde pontuam pegadas de idos, virgens brancas que me olham parecendo saber a data do óbito, os pés que não se atinam
-o seu paizinho anda muito melhor, a sério, não se preocupe
o cheiro que me fica nos olhos, no nariz, na boca, os outros nos quartos, conchas onde fingem receber visitas de passados que julgam reconhecer e trocam sempre nomes e histórias e datas e o costume, e mais coisa menos coisa, o tecto tem novas luzes, mais azuis, parecem-me, não gosto muito desta mudança de hora, a noite cada vez mais cedo, o robe a atrapalhar mais ainda, páro, mão no braço
-vamos lá então, vá
o teu peito, o teu cheiro, lembras-me a tua mãe, e lembras-me os caracóis loiros que gostava de despentear e tenho saudades de correr contigo na praia, apanhar bocados do mar que escutávamos de ouvido junto e uns pés que não atrapalhavam nada quando dançavámos.

quinta-feira, novembro 02, 2006

Adoro.

Como se não fosse nada comigo, passeio na ponta farta dos teus olhos que me vigiam sempre que estendo a alegria ao mundo a rodopiar-me pela nuca e os casamentos que interrompo com nãos na altura em que a porca torce o rabo em suores dos dois à frente que se amam até que a morte os separe e aqueles que de lado fazem meças às contas de copos de água enquanto tiram o olho de soslaio que habitava o decote das damas de pouca honra, e tu que me desculpas tudo e me dás a mão e me passas festas de caridade pelo cabelo e vês as horas em que cansada tens que me deixar no sitío do costume para que a carrinha quando vier buscar este corpo pesado e parvo não te telefone para o telemóvel com medo de polícias e hospitais preocupados, e afinal, gostas de me dizer adeus, como se estivesse no teu peito, gostas de me dizer adeus, eu com a língua de fora, olhos perdidos, bibe com cuspo e a memória a pregar partidas ao teu choro que engoles faz anos.

terça-feira, outubro 31, 2006

Quem és tu.

Mais nenhum mistério, nada do teu corpo que prende o meu em contra-relógios que viram amanhãs que esperam falésias e céus azuis e laranjas em fins de tarde, violinos e realejos, distâncias e pontes nas quais ganhamos perdendo pobres em esquinas e moedas no chão que a surpresa da miséria nos permite roubar e correr, a vida atravessa aguaceiros e sombras, não incomodar na porta, o dia a gastar-se e luzes brancas, muito brancas, a fecharem-nos os olhos com requintes de bondade que jamais perceberemos.

domingo, outubro 29, 2006

A estrada.

Aquilo que me conduz é o sonho limite de dizer era uma vez a cada um que leia as histórias contadas, a maldição que sorri entre quatro paredes quadrinho do menino com lágrima caixa de costura bibelots e naperons, o sorriso do sol tapado por cortinados sujos a tua voz noite a minha sombra, o passado a devolver raios de esperança espasmos de ternura e nós calados em colchas a matar o frio olhos no tecto e raiva comida pelo silêncio.

sábado, outubro 28, 2006

A paixão que se foi.

Um breve adeus no teu marejar idiota de amante, as minhas chaves do carro em partida que se vai para regueirão alheio e prato de batatas cozidas e copo de vinho tinto em mesa e guardanapo posto em vermelho e verde quadriculado lençol, as hastes dos teus óculos, a chaleira furada, o sabão azul e branco, tu a subires quatro lances de quatro escadas, cansaço cansaço, as tuas chaves do carro em partida que se foram para regueirão alheio, o prato de batatas cozidas e o copo de vinho tinto bebido, o guardanapo babado, os meus óculos no chão, o chá que não provei, o banho que esqueci, e eu escanquilhão a descer quatro a quatro, cansaço cansaço, a fugir rua fora ao amor que sei doer enquanto filhos de pássaros perdidos soletram adianços e noites de chuva e faróis de coisa nenhuma sem abrigo.

quinta-feira, outubro 26, 2006

Sucesso.

Alheio às marchas imperiais que me rodeiam e às salvas condescendentes, sei que tenho a esperança de braço dado. Os heróis nascem assim. Mesmo que a inveja não queira, ou os ódios assim desafiem, sei que a cor dos meus dias é midas por dá cá aquela palha. Dizem que fiz pactos e tratados com quem não devia. Recebo o Bulgakov pelo correio. Recostado na poltrona com pés de patrão na tua alma, sei que os empréstimos são garantidos e assinados com tinta de enxofre.

quarta-feira, outubro 25, 2006

O costume.

Sua Excelência atravessou a sala com consternação no rosto. Aquela lividez sinalizava desgraça iminente para a Nação. Sua Excelência cumprimentou cabeça baixa duas senhoras de apelidos cinco nomes e olhou as medalhas e os cintos bélicos que o iniciavam a rodear. Os quadros de depostos, defuntos e passados pareciam acompanhar o passo pesado do velho padrasto da Pátria. Adivinhava-se iminência de golpe no palácio? Sua Excelência sentia-se cravejado e sem Brutus que culpar. Abeirou-se do balcão, mirou o suor na testa do jovem moreno e permitiu-se terminar o suspense. Ordenou um Porto seco e deu o peito à plateia.

terça-feira, outubro 24, 2006

Amanhã.

Mesmo que o sono ontem passado seja sonho não me negues a mão estendida na escuridão para me guiares no sorriso da lua que lambe o soalho onde a nossa refrega sossega após o sucesso silencioso de ambos.

segunda-feira, outubro 23, 2006

Gato sapato.

Não se falava então de outra coisa. O fulano tinha hábitos. Entrava pelos camarotes quando o terceiro acto se preparava para morrer. A oitava a subir dramática e o larápio de olho na jóia mais vistosa da sala da capital. Os jornais comiam de mesa farta na inutilidade securitária. A sociedade comentava com agrado quem seria a próxima vitíma orgulhosa de ser saqueada pelo ladrão da ópera. Nunca fizeram tanto dinheiro os joalheiros da baixa que ufanavam em encomendas. A minha preocupação era esconder a cauda sempre que me preparava para o golpe.

sábado, outubro 21, 2006

Observações VI.

Gosto de mamas. Cada vez mais. E de cús. E que a madrugada me permita acordar-te várias vezes. Gosto de atolar aqueles que não gostam da minha escrita, anões que preferem pontos parágrafos certos e vírgulas com sombra por toda uma história. Gosto de tirar o travessão do teu cabelo e de te apontar o meu sexo. Gosto que vagueies no sabor que aprecias e que me escorre.

A tua paixão.

Enquanto alguns fazem de gente grande imitando bocas de incêndio a gritarem paixão paixão por dá cá aquela palha, tu sobes a estrados onde gritas o teu amor. És o chamado parvo do dia. És aquele que lês a necrologia nos jornais e tocas gaita de beiços no metropolitano. Tens lenço ao pescoço e calça coçada à boca de sino. Patilhas à aviador e pulseira a dizer Fernando Manuel faz mais de cinco penhores ganha. Sei que não gostas que se fale de ti, mas por não acreditar em amor desculpa-me a ousadia de te saber o último da espécie.

sexta-feira, outubro 20, 2006

Jardim de infância.

Ofereci-te um colar feito de búzios apanhados nesse verão na praia, dei-te um avião em miniatura, colei no teu quarto um poster do teu cantor preferido, escondi no meu jardim as fotografias tipo passe que tirámos os dois, telefonei para a rádio e dediquei-te uma música lamechas, fazia os teus trabalhos de casa de matemática. Olhavas-me com pena e sabias que o futuro se vê melhor quando não namoramos com um tipo despenteado e vestido de popeye na festa de final de ano. Não me deste o beijo que prometeste e senti que jamais te esqueceria.

Constatação.

Não me expliques os detalhes pelos quais te fazes perder noite fora entre abrigos alugados à meia hora e sabores arrancados à dentada pela urgência de fazer o próximo que estiver na esquina.
És uma funcionária pública.

Estreia.

Entra a música. O efeito que nos rodopia os olhos. As legendas e os créditos. A treta do costume. Os comentários de foyer. Lengalenga, lengalenga, lengalenga. Hoje fizeram falta as entradas de onde destaco sempre os croquetes e o martini. Olho para o lado e arrependo-me. Gostou? Podia foguetear um Bardamerda, mas saiem-me teses sobre o filme noir e Hitchcock. Sou um fraco.
Baseado em factos (i)reais.

Era uma vez uma sombra que se afastava do seu dono. Na escuridão e nos becos, caía sempre meio metro à frente, e nas caminhadas em manhãs de boca a saber a papel avançava minímo de dois metros. As tangentes entrecortadas e os armistícios com portas abertas faziam saudação ao ausente de anos que ele era. A guerra acabou naquele dia, quando o começaram a coser e na secretaria olharam-lhe para os pertences: tirando a roupa do corpo, um relógio a que faltava corda, um bloco de folhas de papel selado onde escrevia as memórias e um pente.

quinta-feira, outubro 19, 2006

Observações V.

Tirou os óculos. Míope. Sentiu outra mão conduzi-lo por silvas e humidade. Suspeitava. Acordou estremunhado sem perceber.
Segredos.

Como se o teu olhar fosse aquela salvação que não quero não aguardo não recomendo não vezes nada no vazio do escuro que me aparece quando abro os olhos e estendo a mão e aguardo por ti e me seguras e me levas ao fim da tua pele que percorro e quero e beijo e tacteio e te levo aos lábios e te penetro e te faço sentir o meu gosto e te beijo e te digo quando me despeço, assim sem nada palavra de honra sem nada fazer de conta que sei mas que calado e entre dentes balbucio, amo-te.
Feliz por pouco.

Aquilo que não tens medo. Avancei pé ante pé, mesmo que o solário executasse sombras de vergonha e mentira, os dedos alcançam a pistola e a mão o braço, o jogo de luz a tua cabeça desfeita na parede e tu sabes que sim porque os teus restos desfazados na parede ficam sempre pior quando vistos, a água nos teus lábios, a história para as crianças, os impostos para os adultos, a morte para os velhos. Visto-me de fios enquanto me tapam. As larguras e o oxigénio são alugueres para ricos. A mim, contenta-me o respirar sozinho e um nada de esperança tão estúpida que faz andar a cadeira pelo corredor.

quarta-feira, outubro 18, 2006

Coisas fáceis.

O ar que se respira, A curva das tuas pernas, Um piano em noite de chuva, Uma carta de despedida, O beijo, A mesa posta à luz de velas.

terça-feira, outubro 17, 2006

Acho piada.

Ao teu corpo arqueado e às asas da nossa guerra de sombras dentro deste colchão que se aflige em lamentos e rumores, aos loucos que se despedem uns dos outros sabendo que a sandes do almoço roubada em cafés de instâncias e urgências é Napoleão a fazer-se de crava e Jesus armado ao pingarelho, ao cinzento do céu que anuncia chuva mesmo em dias de sol, aos títulos Pai mata filha em jornais abertos à minha frente no banco do autocarro, às cicatrizes da rua que recebe passos em corrida e às escritas que anunciam amores e franjas de cabelo para as minhas mãos fazerem festas e tributos.

Imaginação.

Gosto de ver o meu amor pela garrafa vazia que nos separa, escondo-me na cidade que molha os estranhos na história entre lamparinas e deserto de sabor, o teu vestido alçado, o meu esquecimento que escondo nos teus lábios, o nada que faz de capa de super-homem, dois navios no Tejo, acendo um cigarro, vôo na tua direcção e perco-me no teu cabelo doce.

segunda-feira, outubro 16, 2006

O conde.

Se for amor isto que sinto, sei que existirá futuro a desdizer estas honrarias de quixotismo e que darão mais importância ao tempo frio e ao nevoeiro que assusta.
A noite passada, quando te percorria o corpo em beijos vi que fechavas os olhos e murmuravas o meu nome entre sorrisos e um esgar de dor.
Se for amor isto que sinto, a lenda ocupa-se da desgraça e nós os dois juntos sempre mesmo que o meu nome afugente pescoços mil.

domingo, outubro 15, 2006

Ideologias.

Entras sempre pela porta da frente e nunca esqueces de saber que as rosas são do dia. Beijas-me no sono e aqueces as mãos nas linhas da minha. Descobres o quarto como faz quinze dias. Sorris à fotografia de um vestido de noiva com anos. Tens cuidado ao sair e deixas-me um bilhete. Gosto sempre das tuas visitas entre fugas pela liberdade.

sábado, outubro 14, 2006

Arco-irís.

Acho piada ao levantares a cabeça na ignorância dos meus comentários e do mundo que te rodeia
-Não és capaz de dizer que me amas
Fico radiante quando me albergas em meias-noites de sorriso ao minuto e à despedida recebes o agradecimento do costume
-Não és capaz de dizer que me amas
Meto-me no carro, mulher e filha à mesa, rabo de pescada cozido, cigarro e telejornal, lençóis de flanela e jornal de domingo

sexta-feira, outubro 13, 2006

Mundo de Aventuras.

O primeiro naquela tarde a saber das coisas foi o Afonsinho, inspirado como sempre pela ternura de contínuo camarário do tio que mascava pastilhas americanas e brilhantina no cabelo e chapéu à dick tracy como víamos no cinema, assim a guinar para os lados. Apesar da fervura crescer em nós os 3, guardei-me para últimos e deixei o Gui, que coitado tinha mãe entrevada e pai nos leprosos, estrear-se e arrancar dores de alma à segunda mãe que arranjou ali para muitos anos, com mimos certos e favas à noite. Com os olhos na cegueira do desejo, avancei-me pelas sombras e caí nos teus braços, e contei-te ao ouvido histórias de quadradinhos e no fim enquanto te lavavas deixei uma maçã na mesinha de cabeceira para que não te esquecesses nunca de mim.
Solidão.

Não sejas parvo. A solidão tem a sua razão de ser. Sabe bem olharmos para a lua ou nadarmos à noite nús ou cantarmos bebêdos à volta de uma fogueira de garrafa e alma na mão,
Disse-lhe que estava enferrujado no coração,
Não sejas parvo. As coisas acontecem quer queiras quer não,
Disse-lhe que tinha medo de fraquejar em altura de decisões,
Não sejas parvo. A pistola encosta-se assim à cabeça e depois são tudo memórias.
Ser assim.

Quando o contrário na noite se distrai a nos perseguir, e tu pensas na chuva que te marca o rosto, sem ligares à pulsação em galope, às pernas que te falham, ao deus que te esquece o socorro agora que precisavas, sabes que o mundo não é justo nem injusto, feliz ou infeliz, é assim feito de monstros como este que te agarra de forma nada gentil o pescoço.
Para sempre.

Não me esperes no fechar de olhos nem no traçado verde insonorizado que anuncia um até breve demorado e mesmo entre dentes enquanto despejas raiva e amargura quero que saibas que te beijo como nunca.

quarta-feira, outubro 11, 2006

Rotinas.

Os olhos castanhos que me toldam a tua beleza adivinham o que quero saber. A mão conduz a luz mesmo que perguntes pelos meus jogos de palavras absurdos e caricatos oriundos de uma inteligência que sorri o disparate. Rotina é o entreleçar de compras e vendas, balanços de secos e molhados, falências e sociedades comerciais, luzes de Natal e selo branco. Quero fazer perguntas estúpidas dignas de uma criança a descobrir que existe um lá fora que mete medo.
Observações IV.

Chamam-lhe imperativos da natureza. Calamidades, tragédias, desatinos dos deuses e coisas que tais. Concluo que o futuro se esqueça de nós à medida que a morte nos entra pelos ossos dentro. Nós perdoamos os azares e a ciência explica o resto. Vamos vivendo.
Ontem e hoje.

Não me apetece nada falar disso, disse-lhe. Sabia que não demorava a descobrir como fechar a janela desta conversa. Olho para o céu e vejo nuvens de chuva. A simplicidade comove-me de tal forma que limpa os pensamentos. Deves a vida a estas pequenas coisas de nada.

domingo, outubro 08, 2006

O avanço.

O relógio vinte e duas e doze, o tempo respira nuvens com desenhos de preguiças, saudades e velhotes com cachimbo, a sala velas e incenso, a música arfa contornos de abraços e pernas, o sonho contigo dentro a despires os teus cansaços.

sábado, outubro 07, 2006

Do amor e tragédias navais.

No sabor de uma aragem que arranha a suavidade do desespero, tento procurar imagens que atenuem a tua ausência. Pesadelos que ganham voz trespassam ânsias, imagens com cor esbatida e história dentro, jardins onde se deitam corpos à bulha no amor. No mar flutuam pedaços do que fomos os dois.

sexta-feira, outubro 06, 2006

Observações III.

Quando se repara com tristeza nos dias que se atravessam em vertigens como fossem números desenhados com a língua de fora, difíceis e encorpados, devemos vestir o pára-quedas e voar do parapeito de forma gentil.

quinta-feira, outubro 05, 2006

O louco.

Raramente desespera nem liga aos coitados mas é bom rapaz que ouve faz anos. Não come nem beija. Pega em qualquer jornal que recolhe no lixo e escreve crónicas de opinião discutidas por mundo e meio que o habita. Foge de moinhos de vento que o perseguem. Liga a televisão e escolhe o programa no invísivel. Diz a si que é tarde e para apagar a luz.

quarta-feira, outubro 04, 2006

Do silêncio como observação soez.

Não me lembro quem, dizia-me sempre

- Não percebes nada do mundo. O que nos move são as gramas de amor.

As chamadas de atenção deste quilate devem ser deglutidas em brando seco por forma a não magoar as paredes do cérebro. Tentava eu com a vida e folhas pautadas encontrar resolução matemática para esta equação de sílabas e que tais, e as flores que te ofereci tinham afinal a lábia toda deste sermão nunca percebido

- Não percebes nada do mundo, sabes?

terça-feira, outubro 03, 2006

O chá.

Os dias acabam sempre com as mesmas histórias dentro dele. As paredes brancas, o grito calado, eu escondido no televisor e nas jogadas de pés que baptizam novos hérois com penteados de marca e tu a beberes chá por uns lábios pelos quais me morria há séculos. A tristeza não é o envelhecer. É a memória.

segunda-feira, outubro 02, 2006

Hara-Kiri.

Esqueço-me de tirar a festa do céu em que a deixámos. Escrevemos da forma mais fácil uma carta de despedida para quem encontrar o que perdemos. Há palavras que duvidamos serem assim, e é curioso termos estas preocupações em alturas destas. Fixei a parede, e é esta a última imagem que guardo. A gata adormeceu junto dos nossos dois corpos frios, pensando o porquê.

domingo, outubro 01, 2006

Observações II.

Esperanças. As que não morrem de morte natural, emigram no Inverno para bancos de jardim definitivos.

sábado, setembro 30, 2006

Talvez.

Saboreia-se a manhã e as desculpas dos copos cheios. A língua que sabe aos cigarros esmigalhados por dedos que estão no topo de uma pilha de Mandrakes e Fantasmas, que eu para largar a infância só por coisas certas. No chão, as roupas denunciam a pressa. No relógio, o dia avançou porque os ponteiros conhecem a função que os liga à nossa inteligência desperta e de séculos viva. Lá fora, há danças de corpos e estrelas que se apagam.

sexta-feira, setembro 29, 2006

Morte ao acordares.

Nada de significativo naquela poça de sangue nos arredores da tua face surpreendida, os olhos cápsulas brancas com recheio azul a indagarem porquês.
Entreguei a mobília completa fez ontem quinze dias. Publiquei as memórias de uma vida e podei a árvore. Saboreei o chá e voltei costas ao desatino.
Os cortinados descobrem a luz, as cartas de amor estão no caixote e a televisão apagada.
Observações I.

Todas as camisas que o são, têm por defeito um botão a mais. Na expectativa, apenas. Parece-me a natureza lógica de uma evolução certa da raça humana.

quinta-feira, setembro 28, 2006

Um dia.

Sempre que os vôos em copos rasos superarem copas de árvores e saltos de costas de gatos sem pára-quedas, e a cólera instalada em múrmurios e os dados lançados em mãos fechadas fazem o arco-íris que te mostro, deslumbrante e chuvoso, perverso por assim o querermos, sorrir mais ruidoso, despindo-se em esconderijos, em cabines telefónicas de super-homens de subúrbios, galochas e frio, permitindo regressos como o que te quero, sei que perdi algures toda a ciência do meu amor por ti.

quarta-feira, setembro 27, 2006

Canibal.

Sei da maneira mais sábia de te fazer cair na teia que me apetece e mostrar-te o baile que se rompe a disfarçar na tremura que nos aquece. Vejo da esperança as coisas banais e distantes. Salvo teu corpo do longe que nos habita e deixo os restos na alma.

terça-feira, setembro 26, 2006

Refúgio.

Quando me deixo levar pelas ondas a escreverem por fora do que devo sei que a matéria com que atalho esta ternura é meio caminho andado para me esquecer que há trânsito e fome e uma criança a bater-me ao vidro com um acórdeon e um cão no ombro que me vigia a lágrima.

segunda-feira, setembro 25, 2006

Eu não presto.

Quando tentares perceber se o mundo é um composto de rios que vasam perdões e paixões como semáforos que dizem sim em verde tinto a uma mágoa que saboreio como a cereja em cima do bolo, sabes que te quero dizer que te amo.
Quando menos souberes do manjar, de um caminho sem sinais com pegadas em serradura, sabes que te quero dizer que te amo.
Quando numa ordem feita de contrários e peças sem régua nem ponto estiveres numa caixa de alíneas que pede televisão a cores, sabes que te quero dizer que te amo.
Quando por dentro da dúvida, e da obediência que nos merece este e qualquer fim, quiseres perguntar, sabes que te quero dizer que me desculpes a faca que te espeto nas costas.
o Penico de Ouro.

Porque não há nada de muito novo para dizer. O amor, a morte, a vida, coisas assim que vão acontecendo, entre dias que nada nos dizem.
Outro dia vi um amor a chegar-se perto e tentei perguntar-lhe ao que ia.
Fiquei tranquilo quando percebi que se aproximava para um adeus.
Quando as coisas ficam bem explicadas, sentimo-nos livres e não nos importamos que os holofotes nos revelem o suor de palhaços pobres com sapatos maiores que o ridículo bem no meio de um público que sinaliza o alarve sorriso em melodias e manias graves.